domingo, 22 de abril de 2007

Vida real

Como numa missão secreta, após uma ligação onde apenas diz sim ou não, muda a direção em que dirigia e vai ao endereço informado, seguindo todas as instruções. Há poucos minutos dirigia com ansiedade e olhando freqüentemente para a hora e para o aparelho celular; o som do carro estava altíssimo, e ouvia reggae pra relaxar, pois, até então, não tinha destino; seguia alguns carros pra fazer um joguinho, assustar alguém naquela noite fria e deserta. O local já havia sido estipulado na manhã do mesmo dia, então, sem ter o que fazer, passou em frente não menos que três vezes, talvez para checar todos os ambientes, algo suspeito, ver se era necessariamente escuro e totalmente neutro. Bem, aquela era a tão esperada hora. Esfregou as mãos – estavam suadas –, fez aquele trajeto, então conhecidíssimo, passou em frente ao teatro lotado, deu a volta, e parou metros a frente, destravou as portas, puxou o freio de mão e fez uma ligação que não durou 2 segundos. Distraiu-se um pouco, e assustou-se quando ela bateu no vidro. Ela deu um largo sorriso e entrou no carro quando ele sorriu também e fez sinal de que ela podia abrir a porta. Cumprimentaram-se apenas visualmente, pareciam dois estranhos. Ele, então, falou de como havia sido a temporada na Espanha – uma semana que pareceu mais um mês, foi a forma como ele descreveu – contou sobre Valência e suas belas praias, mostrou, meio atrapalhado, algumas fotos enquanto dirigia. Ela apenas sorria. Ele perguntou como ela estava, se “O fantasma da Ópera” era bom mesmo, foi aí que ele pôde ouvir e sentir aquela voz doce. Ela contou com entusiasmo cada ato da peça, até o momento em que ele parou o carro. Aquele lugar era conhecido. Ele desceu, abriu o portão e fez sinal pra que ela passasse para o outro banco e estacionasse o carro na garagem. Entraram na casa. Pareciam livres. Ele sentiu-se tomado por um clima romântico, lembrou-se de que naquela praia de areias alvas desejava que ela estivesse ali. E por um momento, fez com que aquele lugar se tornasse tão longe quanto a Espanha. Segurou seu rosto. Ela já olhava pra ele. Não eram mais estranhos... O ambiente ficou tomado por saudades. E, de repente, um beijo... outro... ele não queria deixá-la nunca. Agora eram um só. Ele alisava os cabelos dela, enquanto ela dormia em seus braços. Duas horas depois ele encerrava sua atividade fugitiva. Despediu-se dela com saudade. Abriu os olhos e já era vida real. Rosto cansado e sofrido, mas o seu sorriso voltara. Já era hora de dormir.

2 comentários:

Anna Soares disse...

chiquerrimo, Espanha!
Arriba

Anônimo disse...

"ah, vida real, como é q eu troco de canal?" -- HG.